A floresta em pé vale muito mais do que a madeira que pode fornecer ou o carbono que consegue armazenar. Ela contribui para regular o clima, proteger os recursos hídricos, conservar a biodiversidade e sustentar atividades econômicas. Reconhecer esse valor e transformar o conhecimento técnico em políticas públicas, oportunidades de negócios e soluções concretas foi o desafio que norteou o painel “Florestas no Centro da Solução Climática: Engenharia, Carbono, Restauração e Energia para o Futuro”, realizado durante a 81ª Semana Oficial da Engenharia e da Agronomia (SOEA), em Aracaju, Sergipe.
O encontro reuniu profissionais da engenharia florestal, pesquisadores e representantes da gestão pública para debater como as florestas podem ocupar uma posição estratégica nas respostas à crise climática. Mais do que apresentar experiências, as discussões evidenciaram uma questão fundamental: embora o Brasil reúna uma das maiores riquezas florestais do planeta e disponha de profissionais qualificados e tecnologias avançadas, ainda há um longo caminho para transformar esse potencial em ações permanentes e reconhecidas pela sociedade.
A abertura foi conduzida pela engenheira florestal Érica Souza Rossi, coordenadora nacional da Coordenadoria de Câmaras Especializadas de Engenharia Florestal (CCEEF). Também participaram Mariane Hatsuno Murakami, diretora de Clima, Energia e Transição Energética da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e da Economia Verde de Santa Catarina; Eleandro José Brun, professor da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Engenheiros Florestais (SBEF); Jefferson Januário Mendes, professor do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG); e Mauro da Silva Caldas, diretor técnico de concessões florestais, com atuação no manejo sustentável de florestas públicas. A mediação ficou a cargo da engenheira florestal Elizangela Bortoluzzi, coordenadora-adjunta da CCEEF.
Floresta também é infraestrutura
Uma das principais reflexões do painel foi a necessidade de mudar a maneira como as florestas são percebidas no planejamento do desenvolvimento. Tradicionalmente associadas à paisagem natural ou à exploração de recursos, elas precisam ser reconhecidas também como parte da infraestrutura essencial para a segurança climática e o equilíbrio dos territórios.
A relação fica evidente diante de problemas cada vez mais frequentes nas cidades. Enchentes costumam direcionar o debate para galerias pluviais, canalizações e obras de contenção. Já as ondas de calor levam à discussão sobre energia e climatização. Entretanto, a vegetação, os solos e os ecossistemas também desempenham funções importantes na regulação da água e da temperatura, contribuindo para reduzir vulnerabilidades ambientais.
Isso não significa que a restauração florestal substitua as obras de infraestrutura, mas que o planejamento precisa integrar soluções de engenharia, conservação ambiental e recuperação dos ecossistemas. Para isso, são indispensáveis estudos técnicos, acompanhamento contínuo e avaliação dos resultados.
Plantar uma árvore pode ser uma ação simbólica importante. Restaurar um ecossistema, porém, exige planejamento, conhecimento especializado, recursos financeiros e anos de monitoramento. É nesse processo que a engenharia florestal demonstra sua contribuição, muito além do momento do plantio.
Mineração regenerativa transforma desafios em oportunidades
Um dos exemplos apresentados pelo professor Jefferson Januário Mendes, do Instituto Federal de Minas Gerais, mostrou como a inovação pode contribuir para enfrentar passivos ambientais associados à atividade mineral. A abordagem da mineração regenerativa propõe desenvolver alternativas para recuperar áreas degradadas, aproveitando materiais da própria atividade quando houver condições técnicas e ambientais adequadas.
Em Itabirito, Minas Gerais, município que enfrenta problemas relacionados a aproximadamente 200 voçorocas — grandes processos erosivos que comprometem o solo e podem afetar os recursos hídricos —, uma das intervenções relatadas utilizou cerca de 2 milhões de toneladas de materiais provenientes da mineração para recompor aproximadamente cinco hectares degradados.
O trabalho envolveu técnicas de estabilização do terreno, drenagem e recuperação ambiental. A proposta busca enfrentar dois desafios simultaneamente: dar destinação adequada a materiais da atividade mineral e recuperar áreas comprometidas pela erosão.
A iniciativa, entretanto, depende de critérios rigorosos. Nem todo material pode ser reaproveitado, e sua utilização exige estudos geotécnicos, geoquímicos e ambientais que garantam a segurança da intervenção e evitem novos impactos.
A experiência demonstra como a engenharia pode ampliar as possibilidades de recuperação de territórios afetados. Em vez de considerar os métodos tradicionais como limite, a inovação permite buscar alternativas capazes de conciliar conhecimento técnico, responsabilidade ambiental e eficiência no uso de recursos.
Conhecimento técnico precisa chegar às decisões
Outro ponto central do debate foi a distância entre a capacidade técnica já desenvolvida pelo setor florestal e sua participação efetiva nas decisões sobre o futuro do país.
O Brasil dispõe de ferramentas para realizar inventários florestais, mensurar estoques de carbono, monitorar territórios, manejar florestas de forma sustentável e recuperar áreas degradadas. Ainda assim, transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes, mecanismos de financiamento e oportunidades econômicas continua sendo um desafio.
A engenharia florestal precisa participar de forma mais ativa das discussões sobre infraestrutura, energia, produção de alimentos, desenvolvimento regional, segurança hídrica e estratégias de enfrentamento das mudanças climáticas. Sua atuação não deve ficar restrita aos processos de licenciamento, à elaboração de inventários ou ao cumprimento de obrigações de recuperação ambiental.
Essa participação também exige diálogo com outros setores econômicos e com a sociedade. Não basta desenvolver metodologias, normas e instrumentos de monitoramento cada vez mais sofisticados. É necessário traduzir o conhecimento técnico em informações compreensíveis, capazes de demonstrar como a conservação e o manejo responsável das florestas contribuem para a qualidade de vida e para o desenvolvimento.
Economia verde sem perder o valor ambiental
A discussão sobre carbono, restauração e energia também reforçou a importância de criar condições para que a conservação florestal tenha viabilidade econômica. Mecanismos de financiamento, valorização dos serviços ecossistêmicos e iniciativas de manejo sustentável podem ampliar as oportunidades de geração de renda e estimular a proteção dos recursos naturais.
Entretanto, o valor das florestas não pode ser reduzido à quantidade de carbono armazenado ou à receita que determinado projeto é capaz de produzir. Sua importância ecológica, social e cultural ultrapassa os indicadores econômicos. A economia verde deve contribuir para viabilizar a conservação, sem transformar o retorno financeiro no único argumento para proteger os ecossistemas.
O painel da 81ª SOEA deixou uma reflexão que vai além das fronteiras da engenharia florestal: o país já possui parte importante do conhecimento necessário para enfrentar os desafios climáticos. O próximo passo é ampliar o espaço desse conhecimento nas decisões públicas e privadas, fortalecer a atuação dos profissionais e transformar experiências técnicas em soluções de longo prazo.
As florestas estão no centro das respostas às mudanças climáticas. O desafio é fazer com que também estejam no centro do planejamento, dos investimentos e das escolhas que definirão o futuro do desenvolvimento brasileiro.

