A engenharia está mudando — e a formação dos profissionais precisa acompanhar esse movimento. Em um mercado impulsionado pela transformação digital, pela interdisciplinaridade e pela busca por soluções cada vez mais complexas, dominar os conhecimentos técnicos continua sendo indispensável, mas já não é suficiente. Criatividade, pensamento crítico, comunicação, liderança e capacidade de trabalhar de forma colaborativa estão entre as competências cada vez mais exigidas dos novos engenheiros.
A avaliação é da presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), Adriana Tonini. Segundo ela, as Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia, estabelecidas pela Resolução CNE/CES nº 2/2019, já apontam para uma formação mais ampla, na qual o egresso deve ser crítico, criativo, ético e capaz de inovar, além de apresentar visão holística e multidisciplinar.
“No entanto, na prática, os currículos continuam muito centrados em conteúdos técnicos e pouco voltados para o desenvolvimento de competências transversais, como liderança, comunicação, pensamento crítico e capacidade de adaptação”, observa a professora titular da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
As próprias diretrizes indicam, portanto, que a formação deve ir além da transmissão de conhecimentos em sala de aula. O desafio está em transformar esses princípios em experiências concretas, capazes de preparar o estudante para situações que encontrará ao longo da carreira.
Para Tonini, o perfil profissional demandado atualmente envolve pessoas preparadas para aprender continuamente, interpretar dados complexos, dialogar com equipes multidisciplinares e assumir protagonismo em projetos.
Quando o currículo ultrapassa a sala de aula
Uma experiência da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) mostra como atividades que complementam a formação acadêmica podem contribuir para o desenvolvimento dessas competências durante a graduação.
Desde 2025, a instituição registra 721 Atividades Acadêmicas Complementares (AAC) e 97 ofertas de Atividades de Extensão Universitária (AEX). A escola também mantém dez organizações estudantis não associadas diretamente à grade acadêmica, entre elas o Grêmio Politécnico, a Associação Atlética da Politécnica e oito Centros Acadêmicos.
De acordo com a instituição, essas iniciativas proporcionam aos estudantes experiências que dificilmente seriam adquiridas apenas nas aulas convencionais. Projetos de extensão, organizações estudantis e equipes esportivas colocam os futuros engenheiros diante de situações que exigem planejamento, organização, gestão de pessoas, tomada de decisão e trabalho coletivo.
Foi o que percebeu o estudante de engenharia elétrica Danilo Hako, que atuou como um dos capitães do grupo de robótica Thunderatz e como diretor de modalidade de uma equipe de beisebol. “Para atingir um objetivo, você precisa saber como organizar o time, através do manejo de dinheiro, gestão de pessoas e garantir que jogaremos os campeonatos”, avalia o universitário.
Inicialmente, Hako considerava que exercer liderança era uma atividade distante da engenharia. A experiência, porém, mostrou que as chamadas *soft skills* — habilidades comportamentais e sociais — possuem relação direta com a atuação profissional.
Engenharia em contato com a realidade
A experiência também ultrapassa os limites da universidade. Nas atividades de extensão, os estudantes entram em contato com diferentes realidades sociais e precisam aplicar conhecimentos técnicos para compreender problemas concretos e propor soluções.
Na AEX Bandeira Científica, por exemplo, alunos de engenharia ambiental participam de expedições que contribuem para a melhoria do saneamento básico de comunidades.
Segundo o professor André Marguti, do Departamento de Engenharia Ambiental da Poli-USP e um dos supervisores da atividade, a iniciativa amplia a percepção dos futuros profissionais sobre o impacto de seus projetos.
“Os alunos conseguem ter uma visão muito legal de trabalho de campo, ver para quem eles têm que fazer projetos, viver uma realidade totalmente diferente das que eles vivem na cidade de São Paulo, sem recursos”, afirma o docente, que pesquisa soluções de engenharia para adaptação e mitigação das mudanças climáticas.
O contato com diferentes contextos ajuda a mostrar que uma solução de engenharia não existe isoladamente. Ela precisa considerar pessoas, território, recursos disponíveis, impactos ambientais e as características específicas de cada comunidade.
Competências para um mercado em transformação
Experiências como as desenvolvidas na Poli-USP ajudam a materializar um desafio apontado pela Abenge: aproximar o conhecimento acadêmico das situações encontradas no mundo profissional e na sociedade.
A participação em organizações estudantis, por exemplo, pode colocar o aluno em contato com gestão financeira, planejamento, comunicação institucional, negociação e liderança. Já os projetos interdisciplinares e de extensão aproximam diferentes áreas do conhecimento e apresentam problemas que não cabem nos limites de uma única disciplina.
Para Adriana Tonini, esse movimento precisa ser ampliado e estruturado nas instituições de ensino brasileiras. “É necessário fortalecer parcerias com a indústria, valorizar competências humanas e estratégicas e criar mecanismos de avaliação que contemplem não apenas o domínio técnico, mas também habilidades de liderança, comunicação e inovação”, afirma.
Na Poli-USP, a experiência dos universitários reforça essa perspectiva. Para o estudante de engenharia ambiental Gabriel Hanashiro, a diversidade de atividades oferecidas durante a graduação representa um diferencial na formação. “O extracurricular da Poli aplicado na engenharia é muito essencial, e me ajudou muito a ter essa visão social como engenheiro”, enfatiza.
Mais do que acompanhar novas tecnologias, a formação em engenharia passa, assim, pelo desenvolvimento da capacidade de compreender problemas sob diferentes perspectivas e trabalhar coletivamente na busca por soluções. Em um cenário de transformações aceleradas, formar bons engenheiros significa preparar profissionais capazes de unir conhecimento técnico, responsabilidade social, criatividade e capacidade de adaptação.

