Por Osni Ribeiro Mello
O centro de Florianópolis está prestes a ganhar um novo olhar. O Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA), em parceria com o renomado escritório dinamarquês Gehl Architects, está desenvolvendo um projeto transformador para os espaços públicos da região central da cidade. Iniciativa, financiada pela ACIF e CDL, que promete entregar projetos conceituais tangíveis e um masterplan estratégico da área para a Prefeitura de Florianópolis.
“É fundamental unir conhecimento técnico internacional com experiência e sensibilidade local. O Gehl Architects traz décadas de pesquisa consolidada em ‘Cidades para Pessoas’, aplicada em metrópoles como Copenhague, Melbourne e Nova York. E o LUA atuará como coordenador técnico local, promovendo a integração entre os diferentes atores e garantindo que as soluções dialoguem com as especificidades da capital catarinense”, explica a arquiteta Tatiana Filomeno, diretora executiva do LUA.
Masterplan e seus princípios
Tatiana afirma que o masterplan da iniciativa será uma estrutura urbana simplificada para a área central, mapeando as principais conexões, a rede de espaços públicos e o ritmo urbano. “Uma ferramenta para guiar futuras intervenções, mantendo a qualidade e alinhamento espacial ao longo do tempo”. Observou que a escolha do Centro como foco inicial não foi aleatória. “A região concentra a maior infraestrutura e variação de tipologias. Uma vez criados os modelos, o projeto pode ser replicado para os demais bairros”, justifica.
O trabalho segue cinco princípios orientadores: mobilidade sustentável, espaços públicos, resiliência climática, bairros completos, desenho para crianças e turismo sazonal. “Dentro destes princípios o laboratório está analisando dados como: densidade, áreas verdes, tráfego, acidentes de trânsito, comércio, malha viária e cicloviária, tempo de deslocamento, amenidades e necessidades básicas diárias, também para bairros adjacentes como: Agronômica, Trindade, Saco dos Limões e José Mendes.

Desafios urbanos e soluções integradas
Entre os principais desafios identificados pelo estudo estão as áreas centrais ocupadas apenas por residências, onde os moradores precisam se deslocar de carro para necessidades básicas. “Precisamos melhorar a infraestrutura para caminhar priorizando as pessoas e estimulando-as a deixar o carro em casa. Por que isso vai impactar positivamente na mobilidade”, observou Tatiana,
Para a arquiteta ao reduzir a prioridade do automóvel e ampliar a infraestrutura para pedestres e ciclistas, o projeto pretende liberar o espaço público para usos variados: comércio local, lazer e encontros. “A qualificação dos espaços públicos traz soluções alternativas: mais pessoas nas ruas geram maior segurança; calçadas melhores atraem pedestres e beneficiam o comércio. Uma experiência urbana qualificada beneficiará tanto moradores quanto turistas, conciliando o uso democrático dos espaços com as demandas de mobilidade e comércio local”, afirmou.


Inspirações globais, adaptação local
Copenhague inspirou o projeto pelo desenvolvimento de espaços públicos vinculados desde o planejamento, com foco integral nas pessoas. Londres chamou atenção pela convivência entre edifícios antigos e novos e pelo retrofit de grandes conjuntos para usos mistos. “Florianópolis precisa aprender com essa essência: priorizar pessoas, criar espaços públicos de qualidade, utilizar materiais simples e duráveis, e evoluir o transporte público multimodal”, pontua Tatiana.
A parceria com o LUA garante que os projetos sejam assertivos e tangíveis, evitando a simples cópia de modelos prontos. Essa colaboração também cria um intercâmbio valioso de conhecimento. “Técnicos e estudantes locais aprendem metodologias inovadoras de planejamento urbano, enquanto o escritório internacional se enriquece com os desafios brasileiros. Isso fortalece a autonomia técnica da cidade no longo prazo”, complementa a diretora.

Governança e financiamento
A Prefeitura vai participar do projeto com conhecimento territorial, planejamento e apoio institucional, envolvendo as secretarias afins, mas sem custos de financiamento direto. O orçamento para implementação das transformações será definido conforme os projetos avançam, com possibilidade de utilizar recursos da Outorga Onerosa do Direito de Construir, prevista no Plano Diretor.
“Justamente por ser fomentado por entidades consolidadas como ACIF e CDL, e tendo o LUA em colaboração, este projeto transcenderá gestões municipais, alcançando status de plano de governo”, assegura Tatiana, observando que a iniciativa se alinha à revisão do Plano Diretor, que fortaleceu oportunidades para investimento em espaços públicos.


Resultados esperados e continuidade
Para Tatiana a população pode esperar melhorias concretas nos espaços públicos, qualidade nas calçadas, avanços na micromobilidade e um plano de implantação orientado às pessoas para os próximos meses e anos. “A proposta inclui ações de curto, médio e longo prazo, com projetos tangíveis para execução imediata e o LUA continuará trabalhando em estudos paralelos, como leitura de ruas e tipologias replicáveis em outros bairros, além de projetos relacionados à Outorga Onerosa. Em março de 2026 fechamos o primeiro ciclo do laboratório e iniciaremos novo tema”, revela.
Para a Tatiana o projeto é um presente para Florianópolis. “Uma iniciativa onde entidades, poder público e sociedade se unem para construir uma cidade mais humana, sustentável e vibrante”, conclui.
ENTREVISTA RUTH N. FEREIRA / GEHL ARCHITECTS
A seguir apresentamos uma entrevista exclusiva com a gerente sênior de projetos da Gehl Architects, Ruth Nieto Ferreira, que em outubro participou do CBN Talks, na Casa Hurbana. Oportunidade onde apresentou o projeto de reurbanização de Florianópolis. A Gehl Architects é uma consultoria que atua globalmente em design urbano e estratégia urbana.

RE – A Gehl Architects está envolvida em um projeto em Florianópolis. Do que se trata?
RNF – O projeto é focado principalmente no centro de Florianópolis. Especialmente em algumas zonas especiais, onde queremos desenvolver melhores espaços públicos e criar um plano orientador — um norte — para que qualquer intervenção futura no centro siga essa mesma linha estratégica. O projeto começou em setembro (2025) e estamos ainda na fase de pesquisa, levantamento e reconhecimento do território. Depois haverá uma etapa de framework plan, que funciona como um mini masterplan, além do desenvolvimento de conceitos de design para alguns espaços públicos.
RE – Esses conceitos poderão ser replicados em outras áreas da cidade?
RNF – Sim. Apesar de estarmos focados no centro neste momento, a ideia é que certos conceitos e tipologias possam ser replicados em outras partes da cidade no futuro.
RE – Qual área do Centro está sendo estudada mais a fundo?
RNF – Selecionamos uma zona do centro que inclui a Avenida Paulo Fontes, a Rua Gama D’Eça e a Esteves Júnior, que é mais ou menos paralela. São ruas com perfis muito diferentes, em termos de caixa viária, usos de térreo, presença ou ausência de ciclofaixas. Também lidamos com os desafios históricos da área sul do centro: conexão pobre com a orla, o papel dos terminais de ônibus e a experiência de chegada à cidade, que hoje não é das melhores, pois a travessia até o centro é difícil.
RE – Estão considerando também as futuras transformações na cidade, como o Marina Parque?
RNF – Sim. A concentração atual de atividades no centro deve mudar um pouco com esses novos projetos em desenvolvimento. Isso altera fluxos e focos urbanos, e por isso estamos trabalhando com cinco princípios orientadores:
1. Mobilidade sustentável
2. Rede de espaços verdes, públicos e resilientes
3. Bairros completos
4. Design para crianças
5. Turismo sazonal
E o espaço público pode contribuir fortemente para enfrentar muitos dos desafios associados a esses temas.
RE – Como você avalia a aplicação do projeto em Floripa, fácil/difícil?
RNF – Ainda não posso responder, porque não temos o projeto finalizado. Estamos trabalhando nele. Mas a questão da implementação é essencial desde o início. Criar um projeto que nunca será executado não faz sentido. Por isso buscamos diálogo estreito com a prefeitura e com a sociedade civil. Nesta semana, por exemplo, teremos um ciclo de conversas com arquitetos, urbanistas e cidadãos para discutir esses cinco temas. Isso nos ajuda a identificar desafios, oportunidades e o que já está sendo feito — e assim alinhar expectativas e entender a vontade política.
RE – E sobre o financiamento e a execução na prática?
RNF – Precisamos de alinhamento com o plano macro, mas também é fundamental entender como ele será implementado e com quais recursos. Uma visão de longo prazo é importante, mas também precisamos de projetos menores e mais rápidos, que mostrem resultados tangíveis. Se o plano for percebido como algo distante, as pessoas desanimam. Por isso buscamos propor intervenções menores, replicáveis e que sirvam como demonstração do futuro desejado para o centro de Florianópolis.

RE – O projeto sugere essa combinação de visão macro e intervenções rápidas?
RNF – Sim. O masterplan fornece a visão em grande escala, mas precisamos identificar os movimentos chave e depois fazer um zoom in em alguns projetos específicos que possam ser implementados mais rapidamente. Estamos discutindo nesta semana quais seriam esses locais e quais tipologias de projetos podem começar já.
RE – Na sua opinião, retirar veículos do centro seria a intervenção mais importante?
RNF – Ainda não sei. Estou aqui para aprender sobre a cidade. Estamos numa fase de diagnóstico. Mas é importante dizer: em todas as cidades onde trabalhamos, ouvimos que o problema de trânsito é muito específico — que nenhuma outra cidade tem o mesmo problema. A verdade é que todos os lugares têm questões parecidas, embora com características locais únicas.
No caso de Florianópolis, vocês têm uma situação geográfica muito especial: a orla afunila, todo mundo acaba passando pelo centro, e aquele trecho que poderia ser um passeio maravilhoso à beira-mar é hoje tomado pelo trânsito, com má qualidade do ar e riscos de acidentes. A maior parte do espaço é dedicada a manter o fluxo de veículos.
RE – Isso cria um gargalo urbano?
RNF – Exatamente. Vocês têm mar, morro, o continente e esse ponto muito especial que acaba se tornando um gargalo. Isso torna tudo mais difícil, mas também aponta para onde estão as maiores oportunidades de transformação urbana.

