Enquanto alguns ainda debatem se obra é lugar de mulher, Fabiane Zanco Bortolanza está há 19 anos provando que essa discussão é ultrapassada. Aos 41 anos Fabiane lidera a Zanco Construtora, que projeta e excuta pontes e obras especiais em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná.
A história de Fabiane na construção civil começou cedo. Desde pequena acompanhava o pai e a mãe nos canteiros, respirando o cheiro de cimento fresco e escutando o barulho das betoneiras. “Meu pai sempre dizia que queria que eu fosse engenheira. Na primeira série eu já escrevia isso nos cadernos”, conta Fabiane.
Fabiane é formada em Engenharia Civil, Engenharia de Segurança do Trabalho, técnico em eletromecânica, pós-graduada em Estruturas, está finalizando o curso de Engenharia Mecânica e mais uma pós como especialista em Engenharia de Pontes e Viadutos em BIM (OAE). Mas tem uma coisa que não falta no seu currículo: jogo de cintura para lidar com a desconfiança masculina.

“Nunca me senti intimidada, mas sempre precisei ser firme para ser ouvida. Ainda existe essa desconfiança de que mulher não tem capacidade técnica”, observou Fabiane, afirmando que em vários momentos teve que provar sua capacidade técnica e profissional.
Mas não é só de concreto que vive essa engenheira. Fabiane também atua no Núcleo da Mulher Empresária de Xaxim e do comitê de gestão de crise do CREA/SC e de várias ações sociais. A inspiração vem de casa: a mãe Marilene, que sempre foi prestativa e ensinou desde cedo que “fazer o bem sem olhar a quem” não é só filosofia de boteco, é regra de vida.
SENGE MULHER 2025 – Engenheiras que inspiram mulheres
O futuro já tem nome
Apesar de todas as conquistas Fabiane tem um sonho: ver o filho Erick seguindo os seus passos na engenharia. “Quero ele trabalhando comigo na mesma área”, revela. E para outras mulheres que hesitam em entrar nesse meio tradicionalmente masculino, o recado é direto: “Que possamos usufruir de nossa própria força e capacidade de superação e ir além quando os demais já não acreditam nessa possibilidade.”
Acompanhe a seguir um pouco do que pensa Fabiane Zanco Bortolanza, uma mulher que engrandece a engenharia e que está literalmente e figurativamente construindo pontes.
Revista da Engenharia – Quais foram os maiores desafios que você enfrentou como mulher na engenharia?
Fabiane Zanco Bortolanza – Ao longo desses mais de 16 anos na construção civil, enfrentei muitos desafios — o maior deles foi conquistar respeito em um espaço onde, muitas vezes, eu era a única mulher. Precisei me dedicar intensamente aos estudos, buscar excelência técnica, me preparar todos os dias. E isso não foi fácil. No início da minha trajetória, morei em Arvoredo e estudava em Chapecó. Para conseguir conciliar o tempo e reduzir custos, por um período morei com minha avó. Foi uma fase de muito esforço, com questões financeiras delicadas, como é o início da carreira de tanta gente. Depois vieram os desafios de ser mãe, empresária e ainda continuar estudando. A gente se divide em mil para não abrir mão de nada que é essencial. Persisti com fé, trabalho e dignidade. Acredito muito que tudo que fazemos com verdade e propósito volta para nós — e essa é uma lição que carrego comigo desde a infância.
RE – Como é ser a única mulher em reuniões e canteiros de obra?
FZB – Não é simples. Às vezes o silêncio fala mais que palavras — o olhar que julga, a dúvida disfarçada. Mas aprendi a transformar isso em combustível. A presença feminina traz equilíbrio, dedicação e firmeza. Ser a única mulher, muitas vezes, significa ser a primeira — e ser a primeira vem com o peso da responsabilidade, mas também com a chance de abrir portas. Erguer pontes, para mim, vai além da técnica: é também sobre romper barreiras, aproximar mundos e inspirar outras mulheres a ocuparem o seu lugar. E tenho muito orgulho de saber que hoje posso ser referência para outras mulheres que sonham em seguir por esse caminho.
RE – Qual foi o momento mais difícil da sua carreira e como superou?
FZB – Liderar obras em cenários de crise, como após desastres naturais, foi um dos maiores testes da minha vida. Exigia precisão, decisões rápidas, e ao mesmo tempo um cuidado humano profundo com as pessoas envolvidas. Havia noites sem dormir, escolhas difíceis. E mesmo depois de tanto tempo na área, eu continuo aprendendo todos os dias. Superei com fé, com apoio da minha equipe, e com tudo que construí ao longo da minha formação. Me dediquei muito aos estudos — porque sabia que o conhecimento seria minha principal ferramenta. E também me apoiei em algo que me move até hoje: a certeza de que trabalhar com vontade transforma não só estruturas, mas também vidas.

RE – O que mudou para as mulheres na engenharia desde que você começou?
FZB – Mudou muito. Quando comecei, éramos poucas nos canteiros e praticamente invisíveis nos cargos de liderança. Hoje, vejo mulheres ocupando posições importantes, sendo reconhecidas pelo que são e pelo que entregam. Ainda temos muito a avançar, principalmente em ambientes técnicos, mas há uma nova geração chegando com coragem e consciência do seu valor. Isso me emociona profundamente. Saber que minha trajetória pode inspirar outras me dá forças para continuar, todos os dias. A mudança começa com uma, mas precisa ser coletiva para ser duradoura.
RE – Que conselho daria para jovens mulheres que querem seguir essa área?
FZB – Se dediquem. Estudem. Se preparem. A engenharia exige, mas também devolve. Acreditem na força que existe em vocês. Vão encontrar obstáculos, sim — e às vezes eles parecem maiores do que são. Mas cada superação vai fazer valer a pena. E nunca deixem que duvidem do seu potencial, nem que digam que “isso não é pra mulher”. É, sim. E precisa ser. Porque a engenharia também é feita de sensibilidade, intuição, empatia e visão. Façam tudo com verdade, ética e fé. E lembrem: tudo aquilo que entregamos com o coração, de alguma forma, volta para nós. Eu sou prova disso.
RE – Que recado deixaria para outras mulheres?
FZB – Às mulheres que sonham, que lutam e que transformam o mundo todos os dias, deixo meu abraço e minha admiração. Nunca duvidem da força que carregam. Sejam firmes, sejam doces, sejam o que quiserem — mas, acima de tudo, sejam fiéis a vocês mesmas. A caminhada nem sempre será fácil. Ser mãe, empresária, estudante, profissional — tudo ao mesmo tempo — exige muito. Mas cada conquista, por menor que pareça, é imensa quando se sabe o quanto custou. Acreditem em vocês. E sigam. Porque quando uma mulher avança, todas avançam com ela.











