Com frequência crescente, as notícias sobre a engenharia brasileira trazem um alerta: estão faltando profissionais qualificados para os desafios da engenharia moderna. O último Censo da Educação Superior, do Ministério da Educação (MEC), apontou que 469,4 mil estudantes ingressaram em graduações na área de engenharia em 2014, mas em 2023 este número caiu para 358,4 mil.
O presidente do CONFEA, Vinicius Marchese, tem reiterado essa preocupação, destacando que a escassez de engenheiros inviabiliza a execução de grandes obras e compromete o desenvolvimento do País. A mesma preocupação é compartilhada pelo Dr.-Ing. Carlos Alberto Schneider, que apontou outro ponto crítico: o baixo desempenho da produtividade industrial brasileira, que ocupa a última posição em um ranking de 17 países.

Schneider é integrante do Grupo Transformador, criado pela Academia Nacional de Engenharia (ANE), para analisar o contexto nacional e internacional e definir o conceito de Engenheiro de Excelência — o profissional capaz de enfrentar grandes desafios com soluções racionais, inovadoras e sustentáveis, exercendo liderança técnica e humana. “As demandas atuais da engenharia exigem mais do que conhecimento técnico-científico. É preciso desenvolver liderança, capacidade de trabalho em equipe, autoconhecimento e confiança”, observou Schneider.
O que é a ANE
A Academia Nacional de Engenharia (ANE) congrega 200 engenheiros que se destacaram nacional e internacionalmente, seja na condução de grandes projetos, na pesquisa e inovação, ou na gestão de empresas e obras relevantes. Ao longo dos anos, a ANE tem acompanhado o desenvolvimento do setor, participado de conselhos e elaborado estudos, propostas e planos estratégicos voltados à engenharia e à inovação tecnológica no Brasil. Desde 2024 a ANE é comandada pelo engenheiro Mário Luiz Menel da Cunha — formado em Santa Catarina — que provocou o Capítulo Santa Catarina, composto por 14 acadêmicos com forte atuação empresarial e acadêmica, a desenvolver um trabalho pioneiro sobre a formação de engenheiros no país.
A Escola de Engenharia do Futuro
“Foi assim que surgiu o Grupo Transformador, que modelou a visão de uma escola de engenharia capaz de formar esse profissional de excelência. Um processo de formação que não pode se limitar às disciplinas curriculares dos cinco anos de curso, mas deve incluir: projetos de P&D e de inovação de produtos e processos; empresas juniores e competições tecnológicas; projetos interdisciplinares e viagens técnicas; ambiente de aprendizado ativo e colaborativo”, elencou Schneider.
Para o acadêmico é indispensável também uma infraestrutura moderna, com laboratórios, espaços de prototipagem e professores preparados não apenas tecnicamente, mas como orientadores, mentores e inspiradores. “No centro desse modelo está uma governança sólida, capaz de articular todas as dimensões — acadêmica, institucional e relacional — de forma integrada”, afirmou.
Desafios na Base da Formação
“O problema, contudo, começa antes da universidade. Os jovens chegam às escolas de engenharia em menor número e com deficiências graves em matemática, física e ciências. Por isso é urgente fortalecer o ensino médio e a cultura científica, além de resgatar o prestígio e o entendimento social da engenharia como profissão essencial ao desenvolvimento do país”, observou Schneider, afirmando que outro desafio é o preparo pós-escola, com a necessidade de especializações, mestrados, doutorados, formação continuada e capacitação empreendedora. Formação que deve ser contínua e ao longo da vida, com as universidades atuando como centros permanentes de atualização profissional.
Com base nestas constatações foi criada uma Ação de Dinamização do Processo de Formação de Engenheiros de Excelência, conduzida pela ANE por meio do Grupo Transformador, que tem três grandes propósitos estratégicos:
- Reunir e disseminar boas práticas de formação em engenharia, nacionais e internacionais, adaptando-as à realidade brasileira e disponibilizando-as para escolas interessadas em aprimorar seus processos.
- Desenvolver um projeto piloto em Santa Catarina e implantar uma operação experimental em quatro escolas de engenharia de perfis distintos: uma pública federal; uma pública estadual; uma setorial, voltada à indústria; e uma privada. O objetivo é testar e validar diferentes particularidades da operação pré, durante e pós Escola de Engenharia, considerando as especificidades operacionais de cada instituição.
- Propor um Plano de Governo com base nas boas práticas e nos gargalos observados, voltado à modernização das escolas de engenharia e dos processos formativos pré e pós-universitários, para operarem de forma articulada e sistêmica.
Parcerias Estratégicas
Para implantar e testar este processo, a ANE estabeleceu uma rede de parceiros institucionais essenciais ao projeto: Federação das Indústrias de Santa Catarina (FIESC), representando a indústria catarinense e atuando como parceira estratégica da iniciativa; CREA-SC, como órgão de supervisão e valorização do exercício profissional da engenharia; Governo do Estado de Santa Catarina, por meio da Secretaria de Estado da Educação, como responsável pelo ensino médio; FAPESC e Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, como promotores do processo e do Programa Universidade Gratuita, que prioriza a formação de engenheiros em todo o Estado.
Etapas da AÇÃO ANE
A ação proposta pela ANE será implantada em três fases. Na Fase Conceitual foi definido o modelo de operação e as diretrizes da ação, além da articulação inicial de parceiros estratégicos. Na Fase Preparatória, em andamento, o foco está na estruturação da base de conhecimento, formação da equipe, captação de recursos e planejamento da fase operacional. Na Fase Operacional, prevista para 2026 e 2027, será implementado o projeto piloto em quatro escolas de engenharia catarinenses, com 24 cursos distintos de engenharia, que ao longo de quatro semestres terão acompanhamento contínuo e avaliação dos resultados.
“Durante essa etapa, os Acadêmicos da ANE atuarão como mentores, articuladores e orientadores, promovendo melhorias integradas em todo o sistema formativo. Ao final, está prevista a criação de um Instituto associado à ANE, responsável por manter e atualizar a base de boas práticas, formar especialistas na aplicação dessas metodologias e expandir o modelo para outras regiões do país”, observou Schneider.

Em paralelo a Ação ANE, foi lançada a Campanha EngenhAção, com apoio da FIESC, Governo do Estado e CREA-SC, visando divulgar e valorizar a engenharia e o papel do engenheiro na sociedade. Por meio do portal e das redes sociais, a campanha estimula jovens a conhecerem e escolherem a carreira de engenharia, apresentando histórias inspiradoras e informações sobre as oportunidades do setor.

