A Associação Catarinense de Tecnologia (ACATE) liderou de 13 a 20 de dezembro de 2025 uma Missão Técnica à China que marca um novo capítulo na internacionalização do ecossistema de inovação de Santa Catarina. A delegação, composta por representantes da ACATE, Sebrae-SC, IFSC, Crea-SC, Acif, CDL Florianópolis e empresas de tecnologia, concentrou suas atividades nas cidades de Jiaxing e Hangzhou, na província de Zhejiang, uma das regiões mais dinâmicas da economia chinesa e sede de gigantes tecnológicos como Alibaba e Geely.
A missão surge como desdobramento de articulações iniciadas durante o Startup Summit em Florianópolis, quando representantes chineses visitaram a capital catarinense e identificaram oportunidades de cooperação bilateral. O objetivo central foi conectar os ecossistemas de inovação de Santa Catarina e da China, explorando áreas estratégicas como inteligência artificial, biotecnologia, energia limpa e manufatura avançada.

Instituto da Tsinghua em Jiaxing
O evento de abertura aconteceu no Yangtze Delta Region Institute of Tsinghua University, instituição que opera como ponte entre pesquisa científica, indústria e políticas públicas. O instituto já lançou 12 projetos de inovação com investimento superior a 3 bilhões de yuans, conectando mais de 60 fábricas ao seu ecossistema. Durante a cerimônia, Daniel Leipnitz apresentou Florianópolis como polo de inovação da América Latina, com 6.200 empreendimentos de tecnologia, e a missão foi encerrada com a assinatura de acordos de cooperação entre instituições chinesas e brasileiras, formalizando uma agenda bilateral de desenvolvimento tecnológico.
Alibaba em Hangzhou
A visita ao campus do Alibaba revelou a trajetória da empresa desde 1999, quando foi fundada em um apartamento modesto, até se tornar um império global com 120 mil funcionários. O grupo demonstrou seu ecossistema integrado que unifica varejo físico e digital, logística, fintechs e marketplaces, incluindo o Double Eleven, maior evento de e-commerce do mundo. A empresa lidera em inteligência artificial com modelos open source e anunciou a abertura de seu primeiro centro de dados no Brasil em 2025, com escritórios e suporte a PMEs, startups e iniciativas educacionais.
Future Sci-Tech City
A Hangzhou Future Sci-Tech City, com 128,3 km² de área, abriga quatro laboratórios provinciais focados em cibersegurança, computação quântica, órgãos artificiais e tecnologia aeroespacial. O ecossistema segue o modelo ‘1+3+X’, com inteligência artificial como núcleo, e já atraiu 6.940 talentos internacionais. Entre as empresas destaque estão a DeepSeek (modelos de linguagem open source), a Unitree (robôs humanoides) e a Rocket (óculos de realidade aumentada). A plataforma DreamTown oferece subsídios e infraestrutura gratuita por até três anos para startups.
Shenhao Robotics
A Shenhao, com mais de 8 mil aplicações em 27 regiões, desenvolve robótica para infraestrutura crítica, incluindo inspeção ferroviária com acurácia superior a 95% (já operando em Hong Kong e Singapura), limpeza de painéis solares em temperaturas de até -40°C, patrulhamento urbano com reconhecimento facial, e sistemas para desinfecção e combate a vetores. A empresa demonstrou capacidade de operação em ambientes subaquáticos a 300 metros de profundidade, consolidando seu portfólio voltado a problemas de alto impacto social e ambiental.

Haining e políticas de inovação
Haining, cidade com mais de 5 mil anos de história e PIB superior a 100 bilhões de yuans, combina tradição com investimentos em manufatura avançada e biotecnologia. A estratégia municipal oferece bolsas de até US$ 100 mil anuais para especialistas e já atraiu mais de 6.900 profissionais qualificados. O governo estruturou três plataformas integradas que promoveram mais de 130 projetos, movimentando US$ 16 bilhões. Representantes brasileiros destacaram a complementaridade entre os países e houve propostas concretas para cooperação em cibersegurança, educação técnica, IA e manufatura avançada.
Presidente do Crea-SC esteve na missao
O engenheiro Kita Xavier, representante do Crea-SC na missão, disse que teve a oportunidade de observar, de perto, como a inovação ganha escala quando ciência, indústria e políticas públicas caminham de forma integrada. “A abertura institucional, conduzida pelo Yangtze Delta Region Institute of Tsinghua University, deixou claro que não se trata apenas de pesquisa acadêmica, mas de um modelo estruturado para transformar conhecimento em soluções concretas, com impacto econômico e social. E o instituto atua como uma verdadeira ponte entre universidades, empresas e governos. Em Zhejiang, essa lógica se materializa em investimentos robustos em ciência aplicada, projetos industriais escaláveis e atração de talentos globais. São bilhões de yuans destinados a iniciativas que conectam laboratórios a fábricas, pesquisadores a empreendedores, ideias a produtos. Esse encurtamento do caminho entre teoria e prática é, talvez, a principal lição que o Brasil pode absorver”, afirmou.
Resultados e perspectivas
A Missão Técnica da ACATE à China representa um avanço concreto na internacionalização do ecossistema de inovação catarinense. Os acordos firmados estabelecem bases para projetos bilaterais em áreas estratégicas, com foco em atração de investimentos, programas de softlanding e intercâmbio de conhecimento. A delegação retornou com uma agenda de trabalho estruturada, que inclui:
- Estabelecimento de canais diretos de cooperação com o Yangtze Delta Institute para projetos de deep tech;
- Exploração de parcerias com Alibaba para apoio a PMEs e startups brasileiras;
- Programas de intercâmbio educacional entre IFSC e instituições chinesas;
- Prospecção de investimentos em manufatura avançada, biotecnologia e energia limpa;
- Criação de mecanismos de softlanding para startups catarinenses na China e vice-versa.
A missão consolida Florianópolis e Santa Catarina como protagonistas na construção de pontes entre a América Latina e a Ásia, abrindo caminho para uma nova era de colaboração em ciência, tecnologia e inovação que promete gerar impactos econômicos e sociais significativos para o ecossistema catarinense nos próximos anos.

